Vício

23-03-2021

Começo por esta história, porque passado 1 ano e 3 meses limpo, sinto-me preparado para conta-la. Tinha 15\16 anos, tinha acabado de entrar na secundária, nunca tinha chumbado nenhum ano, era um aluno médio\bom mas a partir do 10ºano a minha vida mudou completamente. O pessoal gostava de ir ao intervalos e no convívio havia o fumo pelo meio. E foi assim como tudo começou. Lembro-me a primeira vez que fumei erva e pelo que me lembro só tinha experimentado 1 ou 2 cigarros. Era o integrar-me com o pessoal, era o sentir-me bem em frente de pessoas que não conhecia ou alguns que até conhecia de outras coisas, como por exemplo o futebol. E um dia  desafiaram-me depois de um treino para ir experimentar e lá fui eu. Claro que na altura parecia tudo fixe, uma brincadeira entre amigos, uma grande moca em cima da cabeça. Como era a primeira vez não sabia como fumar, riam-se de eu tossir mas achei aquilo divertido. E lá fui eu para casa nessa noite, contente de sorriso de orelha a orelha a curtir a minha moca. O problema é que depois dessa vez, quis explorar mais esse mundo, comecei também a fumar tabaco regularmente como as ganzas. A minha vida começou a mudar da noite para o dia, tinha uma relação na altura que me desliguei completamente, mal comecei a fumar, mudei muito a maneira de pensar e de agir, porque pensava que aquilo era a razão e certas pessoas não se encaixavam naquele mundo. Fiz sofrer essa pessoa porque queria ter alguém ali pelo seguro mas ao mesmo tempo tinha um mundo todo la fora à minha espera. Ficava desinibido ao fumar, pensava que era o melhor da escola, que era um playboy. Mais tarde,  comprava e consumia cada vez  mais  até que eu próprio comecei a vender . Na altura sabia bem o "extra" mas não calculava o perigo, pois pensava que podia-se fazer vida disso. Tive 5 anos na escola secundária, chumbei 2 anos coisa que nunca tinha acontecido até à altura. Entretanto no meu segundo 10º, a meio do ano apaixonei-me e foram 8 meses bons em que comecei a fumar menos até mesmo passar dias sem fumar. Mas lembro-me de situações em que fumava às escondidas e houve um dia em que virou-me a cara com uma chapada por uma brincadeira estúpida minha em que para lhe provocar pus uma ganza na boca, do tipo eu continuo a fumar. Coisas que achava piada porque estava a ser um rebelde,  à frente do pessoal era bem visto e achavam piada. Mas estava a ser errado com a pessoa que gostava, primeiro mentia a ela, segundo mentia-me a mim próprio e preferi meter esse mundo a frente de uma relação. Ajudou-me muito apesar de tudo, mas tinha que ser eu a querer e achava mais importante ter uma lista infinita de amigos do que uma pessoa que gostasse realmente de mim como eu era na verdade.  Depois no final desse ano começou as complicações, em que a relação começou a ficar tremida e voltei a dar-me com o mundo dos fumos, talvez procura-se refúgio para esconder a minha dor.  Tive muitas aventuras, fumava e bebia noites inteiras ao som de grandes discotecas e bares pelo Algarve para me esquecer do que sentia. Só queria era sair, faltava as aulas para ir fumar ou mesmo beber para o café logo de manhã com o pessoal, ou mesmo ir para a praia, só me importava com isso, em estar ocupado e a fazer tudo o que não trazia futuro. Nem os meus pais já me reconheciam. Quando a minha mãe descobriu, foi um choque apesar de ela já desconfiar, apenas teve a prova ao vivo um dia, no meu quarto onde estava a fumar na varanda sem me importar com ninguém e o cheiro a entrar pela casa. Tocou-me no ombro porque estava com phones e ao olhar para trás vi uma cara chateada e ao mesmo tempo desabava de tristeza. Vi-a chorar e ainda lhe dei um abraço e prometi-me que ia deixar, mas ate há 1 ano e 3 meses nunca tinha sido cumprido. Até cheguei a roubar dinheiro ao meu pai, para nunca me faltar nada de fumos, entradas em bares, bebidas, comprar relógios, colunas  ou roupa porque nem sempre o que fazia ao vender chegava como o que meu pai me dava de semanada para o que eu consumia. Nunca senti muito a ressaca, nunca me revoltei muito ou me tornei agressivo por não ter para fumar ou mesmo para sair a noite, como vi muitos casos que quando estavam escassos pareciam uns diabos, porque enquanto se tem é tudo muito lindo mas quando não há é como nos faltasse alguma coisa, uma parte de nós, um vazio. Tive muita gente na vida que me tentou dar a mão, agarrar-me e tirar-me dali para fora mas nunca conseguiram, talvez por eu estar demasiado ligado aquele mundo ou pensar que estava a fazer o bem ou mesmo não querer ajuda. Quando cheguei ao 12ºano, estava a meio do ano, desisti de estudar e fui trabalhar com os meus pais, só que nem sempre correu bem pois eu queria é trabalhar 1 ou 2 horas, queria era andar por ai com a malta a fumar, curtir a praia e depois os bares à noite. E no meio do verão o meu pai viu uma publicação da Escola de Hotelaria de Faro, mostrou-me e eu decidi aproveitar essa oportunidade. Tive a morar em Faro durante os 3 anos com pessoal, que todos os dias a casa parecia um céu cheio de nuvens, parecia a casa do povo, era desde de manhã em jejum até ir dormir. Era noitadas na semana do caloiro ou da semana académica ou até dos arraiais às quintas. Muitas noites sem dormir, muitas diretas fiz para ir para a escola e muitas figuras se fazia. Não dava para esconder de ninguém, mas como era hotelaria tinha-se um desconto. No primeiro ano fui chamado ao conselho diretivo com um colega  por fumar ao pé da escola, em que eles queriam que nós influencia-se mos o pessoal da turma e não só, de deixarem de fumar ou se quisemos fumar, fizéssemos depois das horas escolares. Basicamente viam-nos com perfil forte e sabiam que tínhamos bastante potencial. Claro que na altura não quisemos saber, a sorte é que era um bom aluno e aplicava-me e para mim o fumar ajudava-me a concentrar, a ser desinibido nos serviços ou mesmo apresentações orais que ficava sempre nervoso porque tinha medo de falar em publico. E muitos professores falavam comigo, diziam todos o mesmo que estávamos a ser avaliados e que fumasse fora das horas escolares para pelo menos ser mais bem visto a nível profissional, que ninguém tinha que saber o que fazia porque no futuro podia influenciar entre escolher empregado A, B ou C ou a mim. No segundo ano, tive um dos maiores sustos. Basicamente fui apanhado numa operação stop na ponte a ir para a praia de Faro, por um pouco mas mesmo muito pouco que não ia a tribunal e sabe-se lá o que podia ter acontecido. Aí acordei um pouco, mas não o suficiente. Tive que deixar o meu carro, a minha namorada e um amigo, enquanto fui levado para a esquadra. Fui bem tratado, acho que viram que não era um rapaz desleixado, também sabia falar e fui logo sincero quando me confrontaram , porque mal parei o carro, o guarda sentiu o cheiro e não dava para esconder. Notificaram-me, durante seis meses estava em risco de que se fosse apanhado com o que fosse, mesmo só a fumar uma ganza, ia a tribunal. E no dia seguinte tive que ir a outro posto falar com um polícia e um psicólogo que me fizeram um inquérito. E claro que tive que esconder disso da escola onde andava, porque sabe-se lá o que podia ter acontecido. Pelo menos deixei de vender, a partir daí disse a mim próprio que não me ia arriscar por uns tostões ou só para ter para fumar. Vi a minha vida andar para trás. Entretanto os anos passaram, conclui a escola, finalmente tinha o 12º ano e fui trabalhar com os meus pais outra vez. Foi quando começou a mudar algumas coisas, não logo mas agora nos últimos 2/3 anos. Comecei a ver a vida de outra forma, que muitas vezes já não me satisfazia quando fumava e mais tarde vinha a ter muitas tonturas. Foi quando confrontei-me se o que eu estava a fazer estava certo, porque tinha responsabilidade pela primeira vez e já tudo fazia-me confusão. Nunca tinha pensado numa vida sem fumar, mas enganei-me pelo vistos. Fui muito abaixo, porque não sabia o que se passava comigo, sentia-me mais deprimido, as ganzas já não resolviam os problemas que estava a enfrentar até que há 2 anos fui de férias para Cabo Verde e de seguida a Madrid. Durante o tempo de férias estive bem, so algumas vezes é que me sentia tonto ou mais nervoso, a pensar que me ia acontecer alguma coisa. Até que quando de noite, na viagem de Lisboa já para Albufeira depois de uma paragem para beber café e comer umas boas queijadas de requeijão, supostamente para trocar condutores, decidi que me apetecia continuar a conduzir. Pior erro que fiz mas correu tudo bem. Basicamente do nada, comecei a sentir que alguma coisa ia me acontecer. Os meus dois amigos que iam comigo no carro, estavam a dormir. Senti calores e frios, nervosismo, o corpo estranho, a minha visão turva, a querer desmaiar e um formigueiro no peito. A minha perna esquerda tremia e tremia, parecia que não consegui controlar o meu corpo, pensei logo nos meus pais que os queria ver pelo menos mais uma vez. Pensei mesmo que me ia acontecer o pior mas deixei os colegas em casa, ainda meio a tremer mas melhor. Ainda pensei ir ao centro de saúde mas começou a passar os sintomas e fui para casa descansar. Apercebi que talvez fosse das viagens de noite, dormir pouco entre as viagens, aquele stress que é normal, como estava ansioso de chegar a casa e tinha fumado umas ganzas durante o caminho, que aquilo podia ser a razão de ter sentido aquilo tudo. No dia seguinte contei à minha namorada e claro ficou preocupada, que devia ter dito a quem estava comigo no carro ou mesmo ter parado e pedir ajuda a ela que vinha em outro carro. Mas pronto, foi assim que aconteceu. Não liguei muito na altura ao que aconteceu, mas umas semanas mais tarde tive o veredito. Dia 14 de dezembro de 2019, estava a jogar football manager e a fumar, como era habitual. Desliguei o computador, acabei de fumar e fui para o telemóvel ver umas apostas para o dia seguinte. Comecei a sentir umas grandes tonturas e o coração acelerar. Fui a cozinha buscar um copo de água e andar um pouco pela cozinha, até fui ao quintal respirar. Mas nada parava aquele acelerar de coração. Fui ter com a minha namorada ao quarto e ela olhou para mim e ficou sem saber o que dizer, apenas tentou-me acalmar. Fiquei ali deitado ao lado dela, acalmei. Entretanto os meus pais já tinham chegado a casa e o coração volta acelerar e começo a tremer. Fui ter ao quarto dos meus pais, ficaram assustados e mediram-me a tensão. Estava alta e pedi que me levassem ao hospital. Fazia tanta força para não cair para o lado, porque já sentia a visão a querer fechar e fui logo chamado. O medico mal tocou-me começou a olhar para mim com cara do que se passa contigo? Fez me perguntas, mediu-me a tensão, a pulsação e estava tudo alto. Basicamente deram um calmante e fiquei relaxado, fui para casa dormir. Desde esse dia prometi a mim mesmo que não fumaria mais, aliás, não fumei mais nada após essa noite, deixei do nada o tabaco, as ganzas e foi tudo para o lixo o que ainda tinha em casa. Teve que ser um susto ou dois que me fizeram ver o que andava a fazer a mim próprio, que me fez com que parasse o que fiz durante 10 anos. O meu amor próprio foi mais forte que o meu vício. Às vezes é preciso um sinal para parar, pensar e agir. Este foi o meu vício durante anos, não me arrependo de o ter feito porque aprendi muito mas tudo tem o seu limite.

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@ 2021, Bruno Mendonça
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